A blog with some zoom but no magnifier

31.3.06

Vem

Oremos ao prazer da redescoberta.
Oremos pois pela fartura que nos é dada.
Em demasia para embrutecer o corpo e sacudir a alma
Oremos então a essa ode aos sentidos!
Que a espera apenas aguça o apetite,
Que nem cães esfomeados a salivar uivos.

27.3.06

Ficção



Eu queria acreditar que sim, que era eu. Eu queria tanto acreditar que por pouco deixava de ser eu, era outro, um outro que quase encarnava a personagem principal. Metamorfose, de um espectador pouco atento para uma personagem de um filme estrangeiro no qual encontrei francas dificuldades em acompanhar os diálogos, mas lá ia percebendo qualquer coisinha. Já andava confiante de que o que segurava na mão eram flores, afinal não passava de um saco de pipocas. Até já queria acreditar que estava em palco, gesticulando aquilo que me parecia o ideal para a cena em questão, empenhado em mostrar que conhecia a personagem e o enredo, um mundo alternativo ao meu dispor só que afinal ainda ali estava, no mesmo canto, na mesma cadeira, na escuridão de uma sala de espectáculos, a despertar com uma estranha e curta melodia que ecoava de umas quaisquer colunas de som medíocres.

Era o sinal sonoro de intervalo, tentei em segundos relembrar-me da última vez que tinha visto um filme com intervalo, não era recorrente nas últimas salas em que tinha estado.

Um ar frio tocava-me nos braços, parecia percorrer todo um trajecto iniciado nas portas do hall de entrada que servia agora de abrigo a meia dúzia de pessoas. Usufruíam de uma pausa ideal para erigir os seus cigarros, estes libertavam curiosas espirais de fumo que se cruzavam para desenhar um padrão abstracto no vazio.

Em breve o filme iria começar. Decidi passar o intervalo dentro da sala, não sentia necessidade de ir à casa de banho nem de fumar, nem tão pouco estava com as pernas dormentes, efeitos secundários normais em cadeiras pouco confortáveis. Esta pelo contrário era impecável, conseguia deslizar nela e afundar-me apenas o suficiente para me “encaixar” na perfeição. Enquanto o filme não começava, decidi entreter-me com pequenos exames e brincadeiras introspectivas, configurava nessas brincadeiras a possibilidade de construir cenários alternativos com o argumento do filme que tenho vindo a decifrar até agora. Já me começava a interrogar porquê tanto tempo de intervalo quando oiço aquela melodia gasta e de poucas notas, achei estranho o facto de só ser a segunda vez que a ouvia e já me parecia familiar. Desligam-se as luzes e ganha vida o projector. O filme iniciou agora a segunda parte.

20.3.06

Agentes da Austeridade


A destreza inerente à capacidade de deslocação em diagonal, em plenos espaços abertos sem recurso a instrumentos, exteriores. Projecção da habilidade não reconhecendo as leis da física.

Do potencial perigo da aterragem sem a solidez de um obstáculo, uma aterragem mil vezes repetida sem nunca ter avistado etapas finais. Ausência de uma conclusão. Eterna necessidade de questionar que mecanismos activar.

Sem espaço de aterragem, navega-se por entre as infinitas hipóteses de rota, rumos que se perdem no horizonte também ele vagamente desgastado. Entretenimento residual nas diversas manobras e habilidades que se vão adquirindo ou aperfeiçoando.

O desgaste entoa novas limitações, aspiram aos novos desafios aqueles que procuram redireccionar objectivos de uma vida. A manutenção é provisória, a validade não o é.

Reconhecer a necessidade de fazer herdar, assinalar o final de uma etapa e esperar que a maratona prossiga, em direcção ao mesmo horizonte, procurando o mesmo local onde se possa, finalmente, aterrar.

18.3.06

A inadequada performance do silêncio

Em momentos outrora espaçosos, a palavra era motivo de chacota. Alternava-se o tédio ou a pouca vontade de fazer, com irreverentes formas de preencher o tempo, ou seria a cabeça? Em todas as formas algo sustentava aqueles intervalos onde eu e os outros, ou apenas os outros, não conferiam à sua agenda qualquer objectivo; reinava a despreocupação nesses intervalos.

Intrépida sensação de lacuna, agora afugentáva-mos os propósitos, os princípios e com certeza algo mais. Agora era nefasto o dom da palavra, nada por dizer porque tudo era motivo de chacota. Voltávamos a ser essa irrepreensível forma abstracta de ser… junkies contemporâneos.